21 de abril de 2012

ENTENDENDO 'GUERNICA' - DE PICASSO

Guernica / Centro Nacional de Arte Moderna Reina Sofia - Madri, Espanha


- por Tais Luso de Carvalho

Tenho notado, cada vez mais,  em minhas visitas aos museus e espaços de arte, crianças conduzidas por seus professores e sentadas em círculo para aprenderem a entender um pouco das obras de arte: o porquê dos traços, das cores, da simbologia da obra, da personalidade do artista e de sua vida, da época em que a obra foi feita, o porquê daquela obra e qual o movimento a que pertenceu. Só assim pode-se entender, um pouco, do trabalho exposto.

Existem obras que oferecem uma interpretação fácil; outras, porém, requerem estudos mais aprofundados, são mais complexas.

Como Picasso se recusou a esclarecer o possível significado desses símbolos, logicamente surgiram algumas interpretações para Guernica. Mas já o significado da mulher chorando sobre o corpo do filho morto, já é óbvio. Então, mais abaixo, deixo uma interpretação da obra que gostei bastante. Na verdade, todas as interpretações se parecem muito.

A ÉPOCA

Em 1936 a Espanha, tão amada por Picasso, foi sacudida por uma guerra civil. A República da Espanha, sustentada por um frágil governo popular, enfrentou uma rebelião dos militares de direita, liderados pelo general Francisco Franco. A Espanha tornou-se um campo de batalha entre as forças internacionais do comunismo e do fascismo. Em janeiro de 1937 o embaixador espanhol em Paris pediu a Picasso para doar uma pintura-mural ao pavilhão espanhol na Feira Mundial de Paris. Picasso não se mostrou entusiasmado com o pedido e deu resposta descompromissada. O bombardeio de Guernica mudaria tudo.

DESOLAÇÃO E MORTE

Quando as notícias sobre Guernica chegaram a Picasso em 27 de abril, faltavam apenas 27 dias para a inauguração da Feira Mundial. Em 30 de abril foram divulgadas as primeiras cenas das atrocidades. Em 1º de maio Picasso iniciou seus esboços para o mural do pavilhão espanhol. Não tinha mais dúvidas que deveria fazer. Enquanto trabalhava no mural declarou: 


'O que acontece na Espanha é uma guerra dos reacionários contra o povo e contra a liberdade. Toda a minha vida de artista tem sido uma luta contra o reacionarismo e contra a morte da arte. No quadro em que estou pintando – que vou chamar de Guernica – e em todo o meu trabalho recente tenho expressado meu horror contra a casta militar que agora afunda a Espanha num oceano de desolação e de morte'.


A SIMBOLOGIA DOS ELEMENTOS

Esta obra, em preto e branco, constitui certamente numa das obras primas da arte moderna do séc 20. Encomendada pelo governo republicano e, por isso, propriedade do governo espanhol, Guernica esteve anteriormente conservada no Museu de Arte Moderna de Nova York, pois Picasso opunha-se a que o quadro fosse exposto em seu país enquanto Franco estivesse vivo. O ditador morreu em 1975, dois anos depois de Picasso, e o quadro só seria levado à Madri em 1981. Instalado inicialmente no Museu do Prado, está exposto hoje no Centro de Arte Reina Sofia.

- O Touro – simboliza a Espanha, sua bravura, mas também a morte. Ele domina uma mulher em lágrimas, segurando nos braços o corpo inerte do filho. (à esquerda do quadro).

- A Lâmpada - retrata o sol negro da melancolia como projetor que ilumina esta cena de batalha da guerra moderna.

- As grandes bocas abertas, pescoços estendidos, corpos retorcidos – sugere um quadro quase sonoro: imaginam-se os gritos de pânico lançados pelas vítimas. Da mesma forma, a amplitude exagerada dos pescoços e as torções dos corpos desarticulados dão movimento à composição.

- Uma figura à direita, sugere estar sendo consumida pelas chamas de um prédio em fogo.

- A ausência de cor – O artista optou pelo preto e branco em sinal de luto. Essa bicromia reforça a tensão dramática da cena. E dá indiretamente uma dimensão realista à obra, no sentido cinematográfico do termo. As nuanças de cinza permitem colocar sobre o mesmo plano as profundidades de campo.

- O cavalo – Simboliza o povo, sua coragem, sua agonia e seu pânico. Ele pisa seguidamente sobre o corpo esquartejado de um soldado de quem se vê um braço cortado e a mão segurando uma espada - deitado na base da pintura

Picasso havia criado o seu trabalho mais famoso. Guernica não só relatou um fato histórico no sangrento do episódio da Guerra Civil Espanhola, mas também por ser a 'primeira intervenção resoluta da cultura na luta política' - segundo as palavras do crítico e historiador de arte Giulio Carlo Argan.

'A pintura não é feita para decorar apartamentos. É um instrumento de guerra ofensiva e defensiva contra o inimigo'. (Picasso).

(3 metros e meio por 7 metros de comprimento)

No Museu

Centro Nacional de Arte Moderna Reina Sofia - Madri, Espanha

Referências:
Grandes Artistas - Picasso / Cia Melhoramentos – São Paulo
História Viva / Duetto – ano 4

----//----